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terça-feira, junho 30, 2009

Resenha: Anjos e Demônios, de Dan Brown

Entretenimento 101

Sinopse: Antes de decifrar o código de Da Vinci, Robert Langdon, famoso professor de Simbologia de Harvard, viveu sua primeira aventura na Itália, quando tenta impedir que uma antiga sociedade secreta destrua a Cidade do Vaticano.

Uma resenha de um livro de Dan Brown só faz sentido se feita no dia seguinte ao lançamento, uma vez que após esse período todo mundo já leu o livro e nada que seja dito será novidade ou acrescentará ao conhecimento de quem ler a resenha. Então, para que esta resenha agora? Bom, para fazer alguns comentários e comparações.

Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que Anjos e Demônios, tanto o livro quanto o filme, é melhor que O Código Da Vinci. Infinitamente melhor. É um thriller mais bem escrito, que não exagera nas lições de História e não abusa das polêmicas. Talvez por ter sido o segundo livro de Dan Brown (em ordem cronológica, já que foi publicado nos EUA em 2000), a vontade de criar conflitos com o Igreja Católica estivesse presente no autor, mas de forma ainda não tão preponderante a ponto de atrapalhar o enredo.

A estrutura criada por Brown, repetida em todos os seus livros, assemelha-se a um dos folhetins de Nelson Rodrigues. Invariavelmente, seus capítulos terminam com um gancho, que prende o leitor até o próximo.

Ocorre que o próximo capítulo nem sempre foca o mesmo personagem do capítulo anterior, razão pela qual o leitor segue virando as páginas, ávido para encontrar o desfecho daquele outro capítulo. Nesse meio-tempo, outras histórias se entremearam à narrativa e, quando se dá conta, o leitor está enredado em uma sucessão de acontecimentos inesperados que atraem e prendem sua atenção de forma irresistível.

E é só. Quer dizer, contar uma história de forma tão intrigante e envolver o leitor com tanta diligência não é para qualquer um, mas daí a levar o que está escrito a ferro e fogo e enxergar em Dan Brown um anticatolicismo apocalíptico é forçar a barra.

Brown é um excelente contador de histórias que segue a fórmula dos thrillers muito bem: um herói, um vilão, uma catástrofe iminente e uma corrida contra o tempo para encontrar as várias pistas para evitá-la. Esse conjunto de elementos é amplamente usado em livros e filmes (quase todos os de 007, só para citar um exemplo) e dá certo.

Dan Brown é alguém que cumpre o que promete. Entretenimento puro, sem culpa. Ler mais que isso nas suas palavras é discutir o sexo dos anjos.

Resenha publicada originalmente no site Homem Nerd.

quinta-feira, junho 18, 2009

Resenha: Uma Janela em Copacabana, de Luiz Alfredo Garcia-Roza

Ecos dos mestres

Sinopse: Três policiais assassinados. Embora em locais diferentes, o método utilizado e a falta de testemunhas é o que liga os crimes e chama a atenção de Espinosa. Conforme a investigação avança, o delegado percebe que outros policiais podem estar implicados enquanto ele próprio se envolve com mulheres lindas e perigosas.

No quarto livro escrito por Garcia-Roza (Achados e Perdidos), Espinosa está às voltas com uma investigação bastante delicada. A morte de três colegas causa um rebuliço em toda a polícia, que não sabe se deve suspeitar de criminosos ou de mandantes pertencentes à própria corporação. É justamente isso, o fato de haver tanta desconfiança entre colegas, que faz com que Espinosa passe a questionar seu trabalho.

Em Uma Janela para Copacabana, o que o leitor encontra é um profissional desanimado, cuja rotina de trabalho está matando o espírito que originalmente foi o estímulo para Espinosa se tornar um policial honesto e respeitado. Ainda assim, o delegado se dedica a desvendar o mistério por trás das mortes dos colegas com o mesmo profissionalismo que acompanhamos desde O Silêncio da Chuva. Encarregado de uma força-tarefa que deve investigar seus iguais, Espinosa passa a maior parte do livro arisco, atento a tudo e a todos, pisando em ovos, como se diz por aí.

Neste livro, há três personagens femininas bastante importantes. A primeira é Irene, que Espinosa conheceu em Vento Sudoeste e com quem continua a se encontrar em uma espécie de namoro light. Irene funciona como um contraponto para a vida profissional de Espinosa. É na presença dela, nas conversas com ela, que Espinosa desenvolve suas teorias e de quem obtém uma perspectiva externa dos crimes.

A segunda personagem é Celeste, namorada de um dos policiais assassinados e cuja presença, mais etérea que corpórea, é espreita constante na narrativa. Numa analogia ao angustiante livro de Cornell Woolrich, A Dama Fantasma (Phantom Lady)*, Celeste é capaz de aparecer com as respostas de que o delegado precisa apenas para, no minuto seguinte, desaparecer e gerar mais dúvidas ainda.

Por fim, a terceira mulher, Serena. Impossível não se lembrar de Lisa Fremont, de Janela Indiscreta (Rear Window, 1954). Não que Serena seja elegante ou refinada como Grace Kelly, mas a obsessão que desenvolve em relação à vigília da janela do apartamento em frente ecoa a trama de Hitchcock. Serena é, na verdade, mais uma vítima da investigação de Espinosa. Ao mesmo tempo em que tenta desempenhar o papel de mulher fatal, a tentação que o delegado vacila entre combater e abraçar, Serena é envolvida em uma trama muito mais complexa do que ela poderia esperar e da qual não sabe se defender.

Como em Vento Sudoeste, o final é nebuloso, mas, de novo, pouco importa. Garcia-Roza quebra os paradigmas da literatura policial clássica e nos mostra que contar uma história pode ser tão ou mais interessante que seu desfecho.

*Espinosa compra o livro de Woolrich em um sebo, depois de ler o título do primeiro capítulo, que evoca uma contagem regressiva até a execução da sentença de morte do narrador. O autor norte-americano Cornell Woolrich é autor de inúmeros romances e contos, muitos dos quais foram adaptados para o cinema. Um dos mais famosos é “It Had to Be Murder”, que originou o já mencionado Janela Indiscreta, no qual este Uma Janela em Copacabana claramente se inspira.

Resenha publicada originalmente no site Homem Nerd.

segunda-feira, junho 01, 2009

Literatura: Vento Sudoeste, de Luiz Alfredo Garcia-Roza

O meio justifica os fins

Sinopse: No dia de seu aniversário, Gabriel ouve a previsão de que cometerá um assassinato antes de completar mais um ano de vida. Apavorado, o rapaz procura o delegado Espinosa para pedir que ele investigue o crime, que ainda não ocorreu. Gabriel também não sabe quem será a vítima ou por que tentará matá-la.

No terceiro livro de sua carreira, Luiz Alfredo Garcia-Roza dá espaço para que sua experiência como psicólogo e psicanalista influencie sua escrita de maneira incisiva, o que não é um defeito. Muitos estudiosos brasileiros, quando resolveram deixar de lado o meio acadêmico para se dedicar à escrita de ficção, ainda que temporariamente, optaram pela literatura policial e por situar a narrativa em ambientes que lhe são familiares. A professora de Direito da USP, Ada Pellegrini Grinover, escolheu esse caminho em Morte na USP, assim como o antropólogo Reginaldo Prandi (autor de livros sobre orixás e religiões africanas) com seu Morte nos Búzios, para citar apenas dois exemplos. Assim, é muito bem-vinda o viés analítico que Garcia-Roza imprime a Vento Sudoeste.

A premissa do livro já parece coisa de gente, digamos, desprovida de funções psicológicas normais, para usar uma linguagem politicamente correta. Espinosa é convocado a investigar um crime que ainda não ocorreu, do qual vítima, motivo e modus operandi são desconhecidos e cujo delator é o próprio assassino que ainda não o é.

Excepcionalmente, o interessante neste livro não é o desvendar do crime em si, atrativo de toda história policial, mas a escalada da paranoia de Gabriel e sua luta interna para não deixar que a predição do vidente se concretize. Mais uma vez, a escolha do foco narrativo na terceira pessoa e de forma onisciente permite que o leitor entre na mente de Gabriel e acompanhe a dimensão que o rapaz dá à previsão do vidente e como ele permite que isso se torne o centro de sua existência. É também o recurso do narrador onisciente que dá ao leitor pequenas pistas da personalidade de Gabriel e de sua mãe.

Dona Alzira, mãe de Gabriel, aliás, é outros quinhentos. Muito bem construída, a personagem pouco se faz notar, mas de maneira sorrateira adquire importância e explode diante dos olhos do leitor, que se pegará voltando as páginas para conseguir entender como não percebera antes a mudança que acaba de se operar.

Duas coisas ainda valem a pena ser ditas sobre Vento Sudoeste, uma boa e outra não tão boa. A não tão boa é que a personagem feminina bola da vez para Espinosa deixa muito a desejar se comparada a Bia Vasconcellos e Alba (de O Silêncio da Chuva) e Flor (de Achados e Perdidos). Irene não tem a elegância, a agressividade ou o traquejo de nenhuma de suas antecessoras.

O que resta de bom para ser destacado é, mais uma vez, a ousadia do autor. Se em O Silêncio da Chuva, ele conta o final antes mesmo de o livro começar, em Vento Sudoeste o livro termina, mas o leitor não tem certeza do que aconteceu. Nesse caso, pouco importa o fim, é o meio com que chegamos lá que faz a diferença quando se trata de Garcia-Roza e do delegado Espinosa.

Resenha publicada originalmente no site Homem Nerd.

terça-feira, setembro 09, 2008

Literatura: Coração Ferido, de Chelsea Cain

Serial killer de salto alto

Orelha: O detetive Archie Sheridan passou dez anos perseguindo Gretchen Lowell, uma estonteante serial killer, mas foi ela quem o capturou. Dois anos atrás, Gretchen aprisionou-o e torturou-o por dez dias, mas, em vez de matá-lo, ela surpreendentemente o deixou partir, entregando-se à polícia. Quando outro criminoso começa a seqüestrar meninas em Portland, Archie tem que liderar uma nova força-tarefa que investigará os assassinatos. Uma repórter jovem e determinada, Susan Ward, acompanha o trabalho do grupo, o que desencadeia um jogo mortal entre Archie, Susan, o novo serial killer e até Gretchen. Eles têm um maníaco para capturar, e talvez isso liberte Archie de Gretchen de uma vez por todas.

Coração Ferido foi lançado no Brasil com algum estardalhaço, se é que é possível falar assim de qualquer lançamento editorial que não seja Paulo Coelho ou Harry Potter. Após ter ficado quatro semanas na lista dos Mais Vendidos do The New York Times, o livro fez parte do lançamento de um novo selo da Editora Objetiva, o Suma de Letras, que reúne títulos importantes da literatura policial e de thriller.

Quando chegou às livrarias, Coração Ferido vinha embalado em um saco plástico, como os utilizados para coleta de provas e evidências em cenas de crime (quem assiste CSI sabe do que estou falando). Com manchas vermelhas imitando sangue, o livro prometia ser o novo O Silêncio dos Inocentes. Mas não é.

Não me entendam mal, o livro é bom. Ele só não é tudo aquilo que a campanha de marketing prometeu que seria. Quem lê a sinopse espera encontrar o mesmo jogo psicológico perigoso que caracteriza a relação entre Hannibal Lecter e Clarice Starling. Ocorre que o relacionamento entre Archie Sheridan e Gretchen Lowell neste Coração Ferido se apoia muito mais na tensão sexual entre os personagens do que em uma relação de submissão e controle como em O Silêncio dos Inocentes. Mas ainda assim é instigante.

Temos, então, duas histórias paralelas: em flashback, ficamos sabendo dos esforços de Archie para capturar um serial killer, como ele foi engando por Gretchen e acabou sendo capturado; no tempo presente, acompanhamos a investigação de outra série de crimes, para a qual Archie conta com a ajuda dos membros de sua antiga força-tarefa e de uma repórter.

E é essa última que é a história bem contada pela autora. Os suspeitos são apresentados pouco a pouco, não há as óbvias indicações de que um tenha mais probabilidade de ser o criminoso do que o outro. Da mesma forma, cada um dos personagens “do bem” recebe características bastante distintas, evitando que se tornem apenas um amontoado de nomes.

A narrativa ora foca Archie, ora foca a repórter Susan Ward, recurso que acaba por dividir um pouco as atenções do leitor entre os dois e não permite um real aprofundamento de qualquer um. Talvez porque o livro já foi concebido para ser parte de uma trilogia (o segundo livro, Sweetheart, acaba de ser lançado em hardcover nos Estados Unidos), a autora tenha optado por construir os personagens ao longo da série.

Ler Coração Ferido vale a pena, sim. Não é sempre que encontramos histórias com serial killers femininas e, no fim das contas, o mistério e o suspense estão lá, deixando os fãs de thrillers muito satisfeitos quando chegam à última página.

Resenha publicada originalmente no site Homem Nerd.

terça-feira, abril 15, 2008

Literatura: O Executante, de Rubem Mauro Machado

Noir à brasileira

Sinopse: Pela primeira vez em livro, a reunião de três histórias de suspense escritas por Rubem Mauro Machado, vencedor do prêmio Jabuti de melhor romance em 1986, com A Idade da Paixão.

Antes de iniciar o livro, uma nota do autor alerta que as três histórias foram escritas em épocas diferentes e compiladas no volume que o leitor tem em mãos. Em comum, além do fato de o cenário ser o Rio de Janeiro, a violência que “[...] deve ser antes de mais nada imputada ao tipo de sociedade em que vivemos.” O leitor já sabe, então, que não encontrará nada que se pareça com os insípidos crimes ingleses tradicionais.

As duas primeiras histórias, apesar de independentes, possuem personagens em comum: o repórter policial Hipólito Moura e o detetive Rodolfo da 13ª DP, amigos e colegas que se encontram uma vez por semana para trocar detalhes sobre as investigações mais importantes da cidade. Se Sam Spade (O Falcão Maltês, de Dashiell Hammett) ou Philip Marlowe (O Longo Adeus, de Raymond Chandler) tivessem algum senso de humor ou de sarcasmo brasileiro, estariam lado a lado com o jornalista e o policial.

“A carícia da serpente” descreve a investigação, feita pelo jornalista, da tentativa de assassinato de um figurão. Hipólito é hilário, se me permitem o trocadilho ruim. Não no sentido escancarado e pastelão, mas na forma como derruba suas palavras e opiniões no papel, sem pudores. Na minha cabeça, a figura dele se assemelha ao Ed Mort, de Luiz Fernando Veríssimo, mas bem mais esperto.

“Assassinato em Copacabana” é uma história de amor e morte na noite carioca, protagonizada por Rodolfo. Ao contrário do amigo-quase-irmão Hipólito, Rodolfo é mais sério, já foi casado, tem uma filha. Nele, os desejos estão mais latentes e o clima de sexo é presente em toda a narrativa.

A terceira história, que dá nome ao livro, narra a chegada de um pistoleiro de aluguel americano, que vem ao Brasil para uma missão misteriosa. A descrição do pistoleiro nos é dada pela opinião dos que entram em contato com ele e é muito interessante observar como Felipe, o brasileiro encarregado de guiar o americano, ora se comporta como dono e senhor da situação, ora é subjugado pelo matador.

As três histórias são excelente exemplos da aclimatização do policial noir francês e do hard-boiled americano à realidade brasileira.

Resenha publicada originalmente no site Homem Nerd.

quarta-feira, abril 09, 2008

Literatura: O Enigma de Paris, de Pablo de Santis

Homenagem à literatura policial

Sinopse: “Paris, 1889. Os investigadores mais famosos do mundo, conhecidos como Doze Detetives, reúnem-se para participar da Exposição Universal. Pela primeira vez, a seleta sociedade vai revelar ao mundo seus casos mais célebres, a filosofia da investigação, sua concepção do crime e seus métodos. Mas a estranha morte de um de seus integrantes, que teria despencado da torre Eiffel em construção, provocará uma reviravolta nos planos. Os detetives serão obrigados a afinar suas habilidades para resolver o que parece, a princípio, obra de um assassino em série. A realidade nunca é o que parece.” (quarta capa)

Desde que Edgar Allan Poe definiu as características do romance policial de enigma, detetives inteligentíssimos – verdadeiras máquinas de raciocinar – se metem em aventuras sempre acompanhados de um amigo ou de um empregado; o personagem, por vezes, também atua como narrador da história que lemos. Foi assim com Auguste Dupin e o seu amigo inominado (E.A. Poe), Sherlock Holmes e Dr. Watson (A.C. Doyle), Hercule Poirot e Capitão Hastings (A. Christie), Nero Wolfe e Archie Goodwin (R. Stout).

Neste O Enigma de Paris, o escritor argentino Pablo De Santis faz merecida homenagem a essa que é uma das figuras essenciais da literatura policial clássica: o assistente.

Os argentinos dedicam-se, de fato, à literatura de gênero com freqüência maior que nós, brasileiros, e percebemos a influência de Borges e Bioy Casares em De Santis. A história trata, o tempo todo, das regras escritas e não-escritas que um romance policial deve seguir para ser enquadrado no gênero. Na verdade, as normas para a literatura se refletem, no livro de De Santis, na conduta dos personagens, em um exercício de metalinguagem bastante criativo.

O autor desafia todas as regras, como se zombasse da tradição, mas, ao mesmo tempo, desafia o leitor assíduo a percebê-las nas entrelinhas de seu texto. O livro traz um personagem principal que não é detetive, diversos mistérios que não se resolvem e um desfecho extremamente inortodoxo.

Para quem quer apenas ler um bom livro e divertir-se com uma história bem escrita e cheia de insights como “Detetives e sapateiros vêem o mundo de baixo, e uns e outros se ocupam dos passos humanos no momento em que estes se desviam do caminho”, encontrará em O Enigma de Paris um prato cheio.

Quem é apaixonado por literatura policial, como eu, encontrará muito mais. Na segunda parte do livro, em que os Doze Detetives e seus respectivos assistentes estão reunidos em Paris, há todo um capítulo dedicado à definição de cada detetive do que é um enigma. Cada um apresenta a que mais lhe parece adequada, em um elenco de imagens que passa pelo quebra-cabeça e pela folha de papel em branco. O que vemos, porém, é uma análise de metáforas repetidas em diversos romances policiais. De Santis transforma a escrita dos escritores clássicos na voz dos detetives de seu romance.

Uma coisa é certa: o livro é muito, muito bom. Desde que li A Sombra do Vento, do espanhol Carlos Ruiz Zafón, não me surpreendia tanto com um livro.

Resenha publicada originalmente no site Homem Nerd.

quarta-feira, março 12, 2008

Deu no New York Times (5)

Chelsea Cain, autora de Coração Ferido (Heartsick, 2007), publicado no Brasil pela Suma de Letras, analisa o lançamento de Pinkerton's Secret, de Eric Lerner.

Trata-se de ficção inspirada na biografia de Allan Pinkerton, fundador da primeira e mais famosa agência de detetives americana, a Pinkerton National Detective Agency.

Para ler o texto completo (em inglês), clique aqui.

segunda-feira, abril 02, 2007

Desumano



Olívia é uma moça jovem. Estudante de Letras da USP e escritora de um blog de grande audiência, o forsit. Representante da nova geração de escritores.

Talento que, para nossa sorte, escolheu trilhar suas primeiras letras impressas pela literatura policial.

No seu livro de estréia, Desumano, o protagonista é Márcio. Também jovem e estudante da USP. Mas, com um talento um pouco diferente das letras.

Na trama ele deve descobrir quem foi que matou sua mãe e por que. Só que antes vai ter que provar que não foi ele mesmo. Na fuga, driblando o cerco da polícia, ele conta com a ajuda de Luisa, uma moça curiosa e simpática prostituta.

Destaque para a Vila Madalena, bairro de classe média de São Paulo que acaba se transformando em uma espécie de personagem da trama. Seus charmosos e às vezes sinistros becos e ladeiras escondem segredos cuja revelação poderá custar caro.

O final não chega a surpreender, mas tem um impacto, no mínimo, perturbador. E isso já vale a investida.

Um conto que virou livro e que talvez renda até um segundo capítulo...

Abraços criminais,

sábado, fevereiro 24, 2007

O Crime mais Cruel



O livro de Miriam Mambrini é mais um lançamento da literatura policial brasileira em 2006. O primeiro da coleção "Elementar, meu caro leitor", da Editora Bom Texto. Coleção que terá inclusive meu amigo Júlio César Corrêa, com "Crimes e Perversões", na próxima edição.

Não é exatamente um policial clássico. Está mais para um suspense psicológico. Se é em situações extremas que a natureza humana se manifesta na sua forma mais pura, então aqui a gente percebe como ela pode ser mesquinha, frustrada, egoísta e arrogante.

Um tio que vê no sequestro do sobrinho a grande oportunidade para sua falta de criatividade em escrever um livro policial.
Uma mãe que durante o sequestro consegue arrumar tempo para um romancezinho.
Uma empregada doméstica que está mais preocupada em culpar sua companheira de trabalho na casa do que com a própria integridade da criança.
Uma irmã ciumenta que a última coisa em que pensa é na saúde do irmão.
Um pai que parece mais querer aperfeiçoar seu poder de negociação e testar sua performance em situações de pressão.
Parentes e amigos que estão mais interessados nas notícias fresquinhas sobre o sequestro do que com o sequestro em si.
E ainda uma ex-mulher que durante o sequestro vem com a seguinte pérola: "Lembre-se que o valor do resgate já será parte da herança do garoto, portanto o mesmo montante deverá ser transferido para os seus dois outros filhos".

Toda uma série de pequenos crimes - delitos de personalidade. Que estavam sempre ali, presentes, uns mais adormecidos do que outros, só esperando uma oportunidade para virem à tona.

Vieram e não vão embora tão cedo.

Abraços criminais,


Off-Topic:

Cabe sospechar que ciertos críticos niegan al género policial la jerarquía que le corresponde solamente porque le falta el prestigio del tedio. (...) Ello se debe, quizá, a un inconfesado juicio puritano: considerar que un acto puramente agradable no puede ser meritorio.

JORGE LUIS BORGES y ADOLFO BIOY CASARES

domingo, fevereiro 11, 2007

O Paradoxo Grego




O Paradoxo Grego é sem dúvida um dos grandes lançamentos de 2006. O livro pode ser classificado como um thriller de suspense. Brasileiro e de primeira linha.

Depois de "O mercador de Café" e "No Rastro de Chet Baker", voltamos a Amsterdã. Mas agora as questões que se colocam são a ética e o prolongamento da vida. O que aconteceria se de uma hora pra outra a expectativa de vida da população pulasse para 150 anos?

Com certeza muita grana iria mudar de mãos. E numa ponta, sem dúvida, estariam os inventores do elixir da juventude. Mas não antes de algumas mortes e puxadas de tapete.

Andrew Gritti, cientista americano especializado em pesquisas de anti-envelhecimento é convidado por um amigo a conhecer novas descobertas em sua área de pesquisa. Quando chega a Amsterdã, seu amigo está morto.

Gritti, que não é exatamente um exemplo de ética, se vê envolvido em uma grande cilada. Ao mesmo tempo encara a grande oportunidade de sua vida. E ele não está disposto a deixar tudo de lado e sair de Amsterdã com as mãos abanando.

No meio da trama, personagens bem interessantes: dois detetives holandeses fãs de romances policiais, algumas femme-fatales, um pastor, uma blogueira brasileira e muito, muito, cupuaçú.

Jeff Chandley (é brasileiro, apesar do nome estrangeiro) constrói bem os cenários e os personagens. Percebe-se um intenso trabalho de pesquisa para o desenvolvimento da obra. Aborda um assunto um tanto polêmico e consegue fazer um balanço interessante entre Ciência e Religião, talvez com uma tendência um pouco exagerada para esta última. Mas nada que faça com que a obra perca seu viés de suspense e surpresa.

Que 2007 traga obras tão boas como esta de Chandley.

Notas do livreiro:

1. O autor em duas oportunidades cita o filme Cocoon (Cocoon, 1985), onde um grupo de idosos encontra na piscina do asilo a fonte da juventude. Bom filme, que assisti alguma vezes na sessão da tarde.

2. Outro filme citado pelo autor é "O Inimigo de Estado" (Enemy of the State, 1998) em que Gene Hackman é um advogado implacavelmente perseguido pelo governo americano.

3. O livro tem até site oficial: www.oparadoxogrego.com.br. Vale a pena uma visita.

Abraços criminais,

domingo, dezembro 17, 2006

Negro e Amargo Blues




Negro e Amargo Blues talvez seja o principal livro de James Lee Burke. Pelo menos foi com ele que o autor levou o Edgar de melhor novela em 1990.

É o terceiro livro com o detetive Dave Robicheaux (de um total de 16 já lançados nos EUA, 5 já desembarcaram por aqui). Suas tramas não são no estilo do que os americanos denominam "whodoit?" (quem matou?). Está mais para: "como Robicheux convencerá os homens maus a pararem com isso?"

O ex-investigador está aposentado, vivendo da venda de iscas e do aluguel de barcos na Lousiana, próximo ao Golfo do México. Vivem com ele, sua filha adotiva Alafair (nome verdadeiro de uma das filhas do autor) e mais dois empregados. Uma vida aparentemente tranqüila. Suas angústias podem ser consideradas normais para um ex-alcoolátra que ficou viúvo de maneira trágica.

Mas, a encrenca parece que o persegue. Meio sem querer acaba se envolvendo com o amigo Dixie Lee Pough, um velho astro de rock dos anos 50 e Clete Purcell, seu antigo parceiro em New Iberia. O alcóol e a grana às vezes nos levam a caminhos indesejáveis...

E quem acaba na mira da Lei é o próprio Robicheaux. A penitenciária de segurança máxima Angola o espera. E ele não vai querer deixar sua menininha Alafair sozinha no mundo.

Robicheaux é um dos grandes detetives da atual literatura americana. Bastante atormentado por seu passado e extremamente violento quando necessário, suas histórias são ansiosamente aguardadas por uma legião de fãs. Neste livro ele está em grande forma.

Notas do livreiro:

1. "Negro e Amargo Blues" (Black cherry blues) é o nome de uma música criada por Dixie Lee. A letra retrata a amargura, a angústia e o remorso do velho amigo de Robicheaux pelos crimes que cometeu e que o fizeram cumprir pena. É uma homenagem ao vinho de cereja vendido ilegalmente na cadeia.

"Negro e Amargo Blues - Dixie Lee Pough"
Você pode se entregar, você pode até cair
De beber e se drogar.
Isso não importa, paizinho,
Porque você nunca vai esquecer
O gosto da prisão,
Do vinho negro e amargo
Do blues desta canção.


2. Este livro foi eleito 1 dos 100 melhores livros de mistério do século, selecionado pela IMBA (Independent Mystery Booksellers Association)

Abraços Criminais.

domingo, dezembro 10, 2006

The Children of Men (Filhos da Esperança)



Filhos da Esperança (The Children of Men, 2006) acabou de estrear nos cinemas brasileiros. Dirigido por Alfonso Cuarón. Com Clive Owen, Julianne Moore e Michael Caine.

É um filme de ficção científica, baseado em livro homônimo de PD James. O ano é o de 2027 e a raça humana está próxima da extinção. Os seres humanos perderam a capacidade de procriar. As mulheres não engravidam mais. O homem mais jovem do planeta tem 18 anos.

O que passaria na cabeça de um homem sabendo que não haverá futuro para sua espécie? Alguns tentariam desesperadamente arrumar alternativas para aumentar seu tempo de vida na Terra. Uns perderiam a esperança no futuro e a razão de viver. Outros iriam enlouquecer e se unir a fanáticos religiosos ou outros grupos de lunáticos buscando explicações para o inexplicável. O caos estaria implantado.

Para organizá-lo, um sistema totalitário, baseado na força militar. Este é o cenário da Londres em que Theo (Clive Owen) tenta escapar com uma "Fugi" (imigrante ilegal) grávida. Deve levá-la ao "Projeto Humano", onde a resistência ao regime trabalha com pesquisas para tentar salvar a humanidade.

O thriller político tem um ritmo alucinante. As sequências são de tirar o fôlego. E em alguns momentos, o filme tem a aparência de um documentário. O sangue chega a jorrar nas câmeras.

Apesar disso, o diretor deixa claro que o filme é somente inspirado no livro. A essência do que foi imaginado por PD James foi preservada. Mas o filme acaba deixando muitas perguntas sem respostas. A primeira reação após terminar o filme é ir atrás do livro (ainda não editado no Brasil). Buscar explicações para algumas questões e terminar de montar o quebra-cabeça imaginado por PD James.

Enquanto o livro não chega por aqui, divirtam-se com uma pequena ficha técnica da obra na wikipédia (em inglês).

Abraços criminais,

domingo, dezembro 03, 2006

Mamãe não voltou do supermercado



"Um Pulp que pensa que é Spillane" Mario Bortolotto

Assim o próprio autor definiu seu livro "Mamãe não voltou do supermercado", na última Balada Literária, ocasião do seu re-lançamento.

Quem somos nós para contestar?

"Mamãe..." é pulp, no seu melhor sentido. Livro com preço bem em conta, com uma história absurda, entretenimento rápido e extremamente divertido.

A história é narrada, em primeira pessoa, por Caio. Um pequeno marginal sem muitas aspirações, que cometia um delito aqui, outro ali. Nada demais. Aí um belo dia executam no supermercado a mãe do cara, uma senhora simples e que "nunca fez mal a ninguém". Intrigado, começa a perguntar. Sua rede de relacionamentos: travestis, prostitutas, traficantes e outras figuras urbanas. O ritmo é acelerado. Londrina, Ourinhos, Foz do Iguaçu e São Paulo.

As mortes começam a ocorrer em sequência, no mesmo ritmo das transas. Imaginação a mil, regada com alguns requintes de crueldade.

A violência, a postura machista e a vingança com as próprias mãos, nos fazem lembrar das histórias de Mike Hammer, o detetive de Mickey Spillane.

Pra terminar, um final chocante - engraçado e trágico. Bortolotto leva jeito pros policiais. Esperaremos o próximo.

Abraços criminais,

Notas do livreiro:

Mario Bortolotto é dramaturgo e autor do blog Atire no Dramaturgo. O título é uma homenagem ao livro Atire no Pianista, de David Goodis, levado ao cinema por Truffaut. Alías, o autor (Goodis) é citado no livro, em um momento chave da trama.

terça-feira, novembro 07, 2006

No rastro de Chet Baker



Bill Moody é um escritor nada convencional. Sua verdadeira profissão é músico. Então, nada mais natural que seu detetive, Evan Horne, também o seja. Mas as semelhanças parecem terminar por aí: Moody é baterista e Horne, pianista. Um pianista-detetive. Conhece muito de música (acho que as semelhanças ainda não terminaram), particularmente de Jazz, e utiliza seu conhecimento para desvendar crimes seguindo as pistas jazzísticas deixadas pelos meliantes.

Os livros de Moody são recheados de referências às obras e aos artistas do Jazz. Uma verdadeira aula - para entendidos e iniciantes. Impossível terminar de ler e não ir atrás das dicas dos personagens. No final dos livros há inclusive uma discografia selecionada pelo autor (ou será pelo detetive?)

"No rastro de Chet Baker" é o segundo livro com o detetive editado no Brasil. Evan Horne acaba de desvendar um caso de um serial-killer (estória contada no primeiro livro da série, "Viva Bird!") e está atrás de um pouco de sossego.

Até seu amigo Ace Buffington lhe propor uma "parceria" para descobrir as verdadeiras circunstâncias da morte do trompetista Chet Baker: acidente, suicídio ou assassinato? Horne não aceita o convite, mas depois que o amigo some, acaba obrigado a seguir o rastro de Chet Baker. O cenário da investigação é Amsterdã, em meio a uma disputada turnê de shows e os becos da Cidade Velha. As armas do detetive são suas amizades no mundo da música, o grande carisma e inteligência acima da média.

Boa pedida!

Notas do livreiro:

1. Fletcher Paige, grande saxofonista, amigo e parceiro na turnê musical de Evan é um grande colecionador de livros de mistério. Seus autores preferidos são: Raymond Chandler, Ross MacDonald, Walter Mosley, Elmore Leonard e um carinha novo, Gary Philips (ainda não editado no Brasil)

2. Evan, em uma de suas manhãs em Amsterdã, visita a Livraria do Crime de lá, a livraria "Alibi" e compra de presente para o amigo Fletcher um livro de Charles Willeford e seu detetive Hoke Moseley (estes também ainda não desembarcaram por aqui).

3. Em uma passagem do livro, seu amigo Coop, investigador do FBI, é interrompido com um telefonema enquanto está assistindo ao filme "Operação França", grande produção inspirada no título homônimo de Robin Moore.


Abraços Criminais,

sexta-feira, novembro 03, 2006

A Promessa do Livreiro



"Um sábio uma vez me disse que alguns de nós não foram feitos para serem escritores"
"Mesmo um sábio não pode saber de tudo"
(da pág. 432, do livro aí de cima)

Frases instigantes que refletem bem os espíritos do detetive Cliff Janeway e de seu criador, o autor-livreiro, John Dunning.

O primeiro porque sempre tem uma resposta para tudo.
O segundo porque leva sua vida sem parecer se importar com os aparentes obstáculos que ela lhe impõe. Simplesmente os ignora e segue adiante.

A promessa do livreiro - terceiro livro com a presença de Janeway - tem um pouco disso. Livro excepcional, daqueles que você não quer terminar de ler. E quando termina, ele continua presente.

Cliff Janeway decide largar sua vida de detetive e monta uma livraria, com especialização em livros raros (John Dunning, o autor, tem uma livraria nos mesmos moldes, a Old Algonquin Books).

A paixão pelos livros leva Janeway até Richard Burton, lendária figura, considerado um dos maiores aventureiros de todos os tempos. Dominava 29 línguas, conhecia dialetos, era um grande explorador, estudioso de antropologia, botânico, autor de 30 livros, espadachim, homem de grande força física e mental e, em seus últimos anos, tradutor dos 16 volumes das Mil e Uma noites, do Kama Sutra e de outros clássicos orientais proibidos. E tudo isso no final do século XIX.

A coisa começa a se complicar quando uma senhora chega em sua livraria com um exemplar autografado por Burton e com uma dedicatória no mínimo curiosa. E toma dimensões desproporcionais quando o livreiro promete recuperar os demais livros da coleção. Está montada a trama.

No centro dela, os livros. Estes objetos malucos que têm o poder de mudar um homem, uma vida, a história. Janeway começa a recuperar os acontecimentos de um século, meio século e alguns dias atrás para cumprir sua promessa.

Promessa é Dívida. E esta, às vezes, leva um bom tempo pra ser definitivamente liquidada.

Abraços criminais,

quarta-feira, outubro 18, 2006

O Mercador de Café



David Liss tem se especializado em suspenses históricos, abordando muito bem temas relacionados às finanças e à economia. Depois do ótimo “Conspiração de Papel”, onde o ex-boxeador Benjamin Weaver se envolve em uma trama com títulos de uma empresa inglesa, neste “O Mercador de Café” o cenário é a Holanda do século XVII, com as tensões se passando na bolsa de valores, em meio a títulos futuros e opções de compra e venda de mercadorias.

O leitor é “literalmente” transportado para a Amsterdã de 1659:

“Os sinos de Nieuwe Kerk badalavam duas vezes, indicando o fim das movimentações na bolsa de valores. Centenas de corretores saíam para a Dam, a grande praça no centro de Amsterdã. Espalhavam-se pelos becos, ruas e margens do canal. Ao longo da Warmoesstraat, caminho mais rápido para as tavernas mais populares, os vendedores ficavam do lado de fora das lojas envergando chapéus de abas largas para protegê-los das emanações do Zuiderzee. Expunham sacos de especiarias, rolos de linho, barris de tabaco. Alfaiates, sapateiros e chapeleiros convidam os clientes a entrarem nas oficinas enquanto vendedores de livros, canetas e quinquilharias exóticas anunciavam suas mercadorias.”

“A Warmoesstratt tornava-se uma enxurrada de chapéus e roupas negras, maculada apenas pelos colarinhos, mangas e meias brancas, ou pelo brilho das fivelas de prata dos sapatos. Os negociantes vendiam bens do Oriente e do Novo Mundo, vindos de lugares a respeito dos quais ninguém ouvira falar cem anos antes. Excitados como escolares liberados da sala de aula, os comerciantes falavam de seus negócios em uma dúzia de idiomas diferentes. Riam, gritavam, apontavam e agarravam qualquer coisa jovem e feminina que cruzasse seu caminho. Sacavam as suas bolsas e devoravam as mercadorias dos lojistas, deixando apenas moedas à sua passagem.”

O livro tem como carro chefe as artimanhas e negociatas de comerciantes judeus buscando a fortuna rápida nos mercados de valores. O protagonista principal, o judeu-português Miguel Lienzo, tenta a todo o custo salvar sua reputação de grande negociador e enriquecer com um produto até então desconhecido da população européia: o café. Suas armações para controlar o mercado do produto esbarram nos interesses de poderosos grupos, muitos deles representados pela classe dirigente da comunidade judaica recém chegada à Amsterdã.

Neste jogo, traições, trapaças, ameaças, vinganças e mentiras são as peças a serem movimentadas por personagens interessantíssimos como Alonzo Alferonda, Solomon Parido e Geertruid. Vale a pena conferir.

Curiosidade: Ao longo da obra, Miguel Lienzo se distrái com as revistas do ladrão “Pieter, o galante”. Não sabemos se o personagem realmente existiu ou se é uma homenagem a outros ladrões da literatura, como Arsene Lupin, de Maurice Leblanc. Se souberem de alguma pista...

Abraços Criminais

quinta-feira, outubro 12, 2006

Souvenir Iraquiano



Souvenir Iraquiano, de Robinson dos Santos (Editora Cultura em Movimento, 2005) é um título raro no mercado editorial brasileiro. É um livro de espionagem, escrito por um brasileiro e com personagens brasileiros.

Os livros de espionagem tiveram um boom comercial, principalmente após a 2ª Guerra Mundial e durante a Guerra Fria. Autores como Graham Greene, John Le Carré, Frederick Forsyth, Ian Fleming e Eric Ambler trouxeram ao público elementos até então obscuros e desconhecidos, como os bastidores das principais agências de espionagem, o dia-a-dia dos espiões e as estratégias dos estados.

A princípio espelhavam um maniqueísmo explicito, alheio a realidade, mas repletos de ação e suspense. Ao longo do tempo vão evoluindo e os personagens começam a não ser mais facilmente identificados por bons ou maus, mas sim por seus momentos bons e maus.

E é esse espírito que se mostra bastante presente na obra de Robinson dos Santos. A trama é conduzida por três personagens centrais, todos com o mesmo objetivo – roubar relíquias arqueológicas no Iraque pré Guerra do Golfo. Os motivos é que os diferenciam.

Luciano, um brasileiro desesperado para pagar as dívidas de um golpe mal sucedido e com crescentes despesas hospitalares de sua filha com leucemia, pensa ter tido a idéia genial que o tiraria do buraco.

O General iraquiano Fahed não agüenta mais defender as forças armadas de um país que já não é mais o seu. Quer dar uma vida mais digna e serena para sua família.

O espião americano da CIA, Wittmann quer simplesmente largar o emprego e viver sua vida sem nunca mais se preocupar com dinheiro.

Talvez uma usina nuclear desativada, no coração do Iraque, em meio a operação Tempestade no Deserto, onde as atenções estivessem todas voltadas à anunciada Guerra do Golfo, pudesse ser a solução.

Pelas ocupações percebe-se que não são pessoas preocupadas em fazer o bem, em construir uma sociedade melhor. E quem se preocupa com isso? O que há de errado em querer uma vida melhor para você e sua família? Nossa sociedade já há algum tempo parece ter abandonado qualquer outra ideologia que não seja a acumulação de riquezas.

É cada um por si e o Dinheiro contra todos. Nesta luta, o meio (a grana) é sempre o mesmo. Vale tudo para colocar a comida em casa, cuidar da saúde dos filhos ou mesmo comprar uma Ferrari nova. Será?

Souvenir Iraquiano mostra que as escolhas têm seus preços. Que sempre haverá pessoas dispostas a pagar por elas. E sempre haverá aquelas que demorarão muito para quitá-las definitivamente.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Scanner Darkly

Buona Sera,
Estamos de volta. Agora pra falar um pouco da nossa expectativa para a estréia de O Homem Duplo "A Scanner Darkly", no cinema. Baseado no livro homônimo de 1977 de Philip K. Dick, o filme vem com um visual pra lá de arrebatador, com um pouco do estilo de Sin City. Dick é um dos grandes escritores de ficção científica. Não é a primeira vez que o autor é adaptado à tela grande. Blade Runner (Ridley Scott, 1982), inspirado em seu livro "Do Androids Dream of Electric Sheep?", Minority Report (Steven Spielberg, 2002), baseado em um conto de 1958 e O Vingador do Futuro (1990), são alguns deles. No elenco Keanu Reeves, Woody Harrelson, Robert Downey Jr. e Winona Ryder.

No futuro imaginado por Dick as drogas dominaram a Califórnia. O lance do momento é uma tal substância D, um alucinógeno que, dentre seus efeitos, faz as pessoas assumirem dupla personalidade. O policial Fred, viciado na droga, está na captura do maior traficante das redondezas. Só que perseguidor e perseguido são a mesma pessoa. Um policial futurista, com cara de thriller psicológico e que aproveita bem a grande onda dos HQs.



A gente ainda não viu, mas se já quiserem uma opinião de quem viu, leiam a doida resenha de Beto de Nigris no Bagatelas!

Para ver obras de Philip K. Dick disponíveis na Livraria do Crime, clique aqui.

Até a próxima!