segunda-feira, março 26, 2007

Entrevista exclusiva: Luiz Alfredo Garcia-Roza



O nome Espinosa, para nós brasileiros, identifica muito mais o delegado da 12a.DP em Copacabana do que o filósofo holandês do século XVII. O autor de tal proeza dispensa apresentações: Luiz Alfredo Garcia-Roza, referência quando se fala em literatura policial brasileira. Depois de colocar seus fiéis leitores em estado de alerta, ao lançar o romance Berenice procura sem seu mais famoso personagem, Garcia-Roza devolve para nós o delegado Espinosa, em Espinosa sem saída. Leia a entrevista exclusiva concedida à LivrariadoCrime.

segunda-feira, março 19, 2007

trilhasonora4/ferrovia do crepúsculo/james lee burke




ele engraxou os sapatos de todo elenco da produção cinematográfica evangeline, de 1929, e lustrou os sapatos da orquestra de harry james e do senador huey long pouco antes de ser assassinado.

as janelas do lugar trepidavam e até mesmo balançavam com a reverberação provocada por pés dançando, acordeões, baterias e guitarras elétricas cuja microfonia gritava alto como unhas arranhando a ardósia.

ninguém se lembrava do nome do músico, exceto pelas pessoas que, nos anos 50, acreditavam ser ele o maior talento surgido desde bix beiderbecke. o som melancólico de seu trompete hipnotizava platéias inteiras que assistiam a seus concertos ao ar livre na praia de west venice. seus cabelos e olhos negros, a pele clara e uma beleza fatal que parecia morar em seu rosto, qual uma rosa branca desabrochando em meio a luzes negras, tudo isso fazia com que as mulheres virassem o rosto para encará-lo ao passarem por ele na rua. sua interpretação de my funny valentine fazia a gente pensar sobre a natureza mutante das coisas, sobre a morte, com tamanha intensidade que se perdia a noção de tempo e espaço.

fui policial aqui, anos atrás — respondeu ela. — ainda venho à cidade toda primavera para o festival de jazz. você gosta de jazz?
— não.
— devia experimentar — disse ela. — winston marsalis toca nesse evento. grande músico. não gosta de trompete?

scarlotti não passa de um bandidinho desprezível que devia estar dentro do esgoto. ora, os policiais do seriado na tevê cospem na cara dos mafiosos e saem rindo, certo? pare de se preocupar. é tudo rock'n'roll.

ela tinha seios grandes e um corpo avantajado; sua sexualidade e inocência a respeito desse mesmos atributos parecia explodir de suas roupas quando ela dançava o jitterbug ou, momentos depois música lenta, de rosto colado com hank.

nas árvores, os alto-falantes tocavam one o'clock jump; através das janelas do bar, eu podia ver casais dançando freneticamente, girando uns nos braços dos outros, enquanto se lançavam para frente e para trás.

suas mãos estavam juntas, como as de uma cantora de ópera.

diga aos músicos para tocarem my funny valentine — falei eu.

eu quase podia ouvi-lo cantando i got a freaky old lady name of cocaine katie.

o rádio do carro berrava rock'n'roll dos anos 1960.

sexta-feira, março 16, 2007

trilhasonora3/o coração da floresta/james lee burke



ao que diziam, sundance kid e a amante do seu professor, etta place, tinham se hospedado nesse hotel, assim como os artistas de vaudeville eddie e will rogers.

de dentro vinha uma música cantada por elmore james, my time ain't long.

ele tinha caiado o interior da casa, colocado petúnias plantadas em latas de café no peitoril das janelas e pendurado a guitarra de doze cordas, o bandolim, o banjo e o violino em ganchos de paredes da sala. seu talento musical era enorme. ele se referia aos músicos de rock, blues e música country, vivos ou mortos, pelo primeiro nome ou pelo apelido, como se ele e seu interlocutor os conhecessem intimamente: hank e lefty, melissa, lester e earl, janice, kitty, emmylou, steve ray, woody e cisco.

ouço a última música deste cd. é o "rocket 88", de jackie brenston. foi o primeiro disco de rhythm and blues verdadeiro.

ele arrancou com duas mãos o rádio que ficava no painel e jogou-o no chão como se fosse um animal morto.

sua singularidade estava na tradição, que datava da década de 1940, quando as orquestras de salão tocavam glenn miller no terraço.

você sabia que jerry lee lewis foi expulso da faculdade de teologia daqui?

ao pôr-do-sol, uma banda composta de músicas com chapéu duro de palha e jaquetas listradas tocava san antonio rose.

lucas tinha acabado de tomar banho e vestir um jeans limpo e uma camisa esporte, e estava começando a tocar the wild side of life na guitarra, ouvindo as notas subirem no amplificador e vibrarem no ar como borboletas elétricas.

então a banda de lucas entrou no centro da arena, olhando para as milhares de pessoas sentadas nas arquibancadas, e deu início à festa tocando blue moon of kentucky.

ao fundo jerry lee lewis cantava i could never be ashmed of you.

quinta-feira, março 08, 2007

trilhasonora2/o dicionário do diabo/ambrose bierce



asno: cantor popular com boa voz e pouco ouvido.

aplauso: moeda usada pela ralé para pagar aqueles que a divertem e a devoram.

berimbau-de-boca: instrumento pouco musical que se toca prendendo-o entre os dentes e tentando escová-lo empenhadamente com os dedos.

clarinete: instrumento de tortura executado por uma pessoa com algodão nos ouvidos. só há dois instrumentos piores do que um clarinete: dois clarinetes.

dançar: pular ao ritmo de uma música alegre, de preferência com os braços ao redor da esposa ou filha do seu vizinho. existem vários tipos de danças, porém aquelas que requerem a participação dos dois sexos têm duas características em comum: são candidamente inocentes e ardorosamente apreciadas pelos depravados.

fonógrafo: brinquedo irritante que devolve a vida a ruídos mortos.

ópera: espetáculo cuja ação se passa em um outro mundo, cujos habitantes não falam, mas cantam; não têm gestos, mas ademanes; nem atitudes, mas poses. todo espetáculo é simulação, e a palavra deriva de símia, "macaco".

piano: utensílio de sala destinado a afastar um visitante contumaz. funciona massacrando-se as teclas do instrumento e o espírito dos ouvintes.

ruído: fedor nos ouvidos. música não-domesticada. principal produto da civilização e seu sinal mais característico.

violino: um instrumento que faz cócegas no ouvido humano através da fricção da cauda de um cavalo nas entranhas de um gato.

quarta-feira, março 07, 2007

trilhasonora1/negro e amargo blues/james lee burke



eu era o maioral. estive no paramount theater, no brooklin, com allan freed, dividi o palco com nomes como berry e eddie cochran.

ele levou a garota para um bar de negros em breux bridge, se bem me lembro; um bar de zydeco ou coisa assim. que merda é isso, afinal? é música dos negros e cajuns. quer dizer "vegetais"; uma mistura de vegetais.

coloquei la jolie blonde, com iry lejeune, para tocar na vitrola, vesti os calções de ginástica e fiquei malhando na cozinha durante meia hora.

isso foi logo depois dele ter posto o auditório inteiro abaixo cantando i saw the light, no opry.

era uma foto bem antiga, de arquivo, e mostrava-o no palco, sapatos de camurça, calças franzidas, um casaco esporte branco de lantejoulas, a guitarra sunburst pendurada no pescoço.

pedi um filé de frango e um café e fiquei ouvindo a versão de jimmy clanton para just a dream que vinha da vitrola automática no ambiente ao lado.

só que esse cara não tinha nada de engraçado. ele achava que rock'n'roll era coisa de negros e adoradores do diabo.

então, bolei uma canção sobre isso; de cabeça mesmo. podia ouvir todas as notas, as batidas, o contrabaixo me acompanhando.

...la jolie blonde, que instantaneamente fazia com que o ano voltasse a ser 1945.

just a dream, de jimmy clanton, tocava em todas as vitrolas automáticas do sul da louisiana, naquele verão, e os rádios dos carros no drive-in estavam sempre sintonizados no randy's record shop à meia-noite, quando randy dava início à madrugada com o programa sewanne river boogie.

quando o cara começou a tocar big boss man, qualquer um podia ver que ele já havia passado por parchman farm; ninguém consegue fingir esse tipo de sentimentos, filho.

ele construiu uma plataforma para o piano em seu clube, uma daquelas que sobem até os refletores enquanto o cara está tocando.

ficou andando pela casa, mal humorado, e então foi com sua guitarra sunburst até a varanda de trás, sentou-se nos degraus e começou a tocar, palheta nos dedos, e a entoar uma canção que eu ouvira antes apenas uma vez, há muitos anos. a letra seguia a melodia de just a closer walk with thee.

dixie armou um acorde de blues no alto do braço da guitarra e veio descendo com os dedos.

sábado, fevereiro 24, 2007

O Crime mais Cruel



O livro de Miriam Mambrini é mais um lançamento da literatura policial brasileira em 2006. O primeiro da coleção "Elementar, meu caro leitor", da Editora Bom Texto. Coleção que terá inclusive meu amigo Júlio César Corrêa, com "Crimes e Perversões", na próxima edição.

Não é exatamente um policial clássico. Está mais para um suspense psicológico. Se é em situações extremas que a natureza humana se manifesta na sua forma mais pura, então aqui a gente percebe como ela pode ser mesquinha, frustrada, egoísta e arrogante.

Um tio que vê no sequestro do sobrinho a grande oportunidade para sua falta de criatividade em escrever um livro policial.
Uma mãe que durante o sequestro consegue arrumar tempo para um romancezinho.
Uma empregada doméstica que está mais preocupada em culpar sua companheira de trabalho na casa do que com a própria integridade da criança.
Uma irmã ciumenta que a última coisa em que pensa é na saúde do irmão.
Um pai que parece mais querer aperfeiçoar seu poder de negociação e testar sua performance em situações de pressão.
Parentes e amigos que estão mais interessados nas notícias fresquinhas sobre o sequestro do que com o sequestro em si.
E ainda uma ex-mulher que durante o sequestro vem com a seguinte pérola: "Lembre-se que o valor do resgate já será parte da herança do garoto, portanto o mesmo montante deverá ser transferido para os seus dois outros filhos".

Toda uma série de pequenos crimes - delitos de personalidade. Que estavam sempre ali, presentes, uns mais adormecidos do que outros, só esperando uma oportunidade para virem à tona.

Vieram e não vão embora tão cedo.

Abraços criminais,


Off-Topic:

Cabe sospechar que ciertos críticos niegan al género policial la jerarquía que le corresponde solamente porque le falta el prestigio del tedio. (...) Ello se debe, quizá, a un inconfesado juicio puritano: considerar que un acto puramente agradable no puede ser meritorio.

JORGE LUIS BORGES y ADOLFO BIOY CASARES

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Roubaram o Falcão Maltês! De novo?



O falcão é o mesmo. A cidade é a mesma. E quem levou a estatueta também é um mistério.

Dashiel Hammett escreveu o clássico romance em 1932. Uma das mais aclamadas obras da literatura noir ou hard-boiled americana. A trama toda gira em torno da estatueta de um falcão - peça extremamente valiosa. Sam Spade se envolve no jogo e acaba vendo seu sócio assassinado por causa do objeto. O livro está em 10 das 10 listas de melhores (ou mais importantes) obras da litertura policial de todos os tempos.

O Falcão Maltês revolucionou a história da literatura policial. Mudou a cara dos textos. Os detetives deixam de ser somente cerebrais, largam suas mansões e os mistério das classes mais abastadas e vão às ruas. São caras durões, valentes e mulherengos. E têm que ser assim já que estamos na depressão, um período entre guerras, barra pesada. E os detetives, os crimes e as cidades refletem este clima.

A obra foi levada ao cinema em 1941, por John Huston e transformou-se em obra-prima. Humphrey Bogart consagrou-se no papel de Sam Spade. Aliás, na minha opinião, o filme "Relíquia Macabra" é uma das melhores adaptações literárias para o cinema.

A questão é que uma réplica do Falcão Maltês acaba de ser surrupiada do centenário restaurante John's Grill. O restaurante, além de servir grelhados e saladas, abriga um museu dedicado à literatura de Hammett. A decoração do restaurante preserva
o clima da San Francisco dos anos 30-40, palco de grande parte da obra do autor.

O proprietário do restaurante, John Konstin, que várias vezes atendeu o próprio Dashiel Hammett, está indignado. "A estátua tem um significado histórico para o restaurante e para a cidade. As pessoas vêm do mundo inteiro para ver o passáro. E nós o queremos de volta." Está até oferecendo uma recompensa pelo falcão.

Palhaçada! Engraçado? Não para nosso amigo John.

A fonte: Los Angeles Times, 14 de fevereiro de 2007.

Abraços criminais,

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Georges Simenon: parabéns para você!



Se estivesse vivo Georges Simenon completaria hoje 104 anos.
Um dos mais prolíficos autores policiais (utilizou cerca de 20 pseudônimos), considerado um dos maiores escritores do século XX e criador de um dos mais famosos detetives da história, o Comissarie Jules Maigret.

Foram 75 novelas com o detetive, de 1931 - fazendo ressurgir o Roman Policier francês - até 1972. Fora centenas de outras obras, Maigrets e Não-Maigrets, como ele mesmo definia.

Jules Maigret, além do cachimbo e do chapéu, caracteriza-se por ser um detetive de abordagem humana. Apesar de não tolerar os crimes, muitas vezes se coloca no lugar dos criminosos, estudando seu ambiente e suas possíveis motivações.




É um policial honesto, culto e marido fiel e tranquilo. Personalidade um pouco diferente talvez de seu criador. Um dos vários biógrafos de Simenon disse certa vez que escrever era uma distração para o sexo. Segundo o próprio Simenon ele teve em sua vida mais de 10.000 mulheres. Versão contestada por sua esposa - que afirmava que eram aproximadamente 1.200.

Uma pequena passagem de sua vida demonstra um pouco de sua personalidade. Ao completar 70 anos, em 13 de fevereiro de 1973, Simenon mandou que sua secretária inglesa, Joyce Aitken, solicitasse ao consulado belga em Lausanne, na Suíça, onde morava, a susbstituição da palavra "escritor" pela designação "sem profissão" em seu passaporte. Tinha cansado de escrever.

Um pouco antes, em 1966 ganhou o Grand Master Award do Mystery Writers of America.
Seus livros foram várias vezes adaptados para o cinema e para a televisão.

Fica a nossa lembrança.

Abraços criminais,

domingo, fevereiro 11, 2007

O Paradoxo Grego




O Paradoxo Grego é sem dúvida um dos grandes lançamentos de 2006. O livro pode ser classificado como um thriller de suspense. Brasileiro e de primeira linha.

Depois de "O mercador de Café" e "No Rastro de Chet Baker", voltamos a Amsterdã. Mas agora as questões que se colocam são a ética e o prolongamento da vida. O que aconteceria se de uma hora pra outra a expectativa de vida da população pulasse para 150 anos?

Com certeza muita grana iria mudar de mãos. E numa ponta, sem dúvida, estariam os inventores do elixir da juventude. Mas não antes de algumas mortes e puxadas de tapete.

Andrew Gritti, cientista americano especializado em pesquisas de anti-envelhecimento é convidado por um amigo a conhecer novas descobertas em sua área de pesquisa. Quando chega a Amsterdã, seu amigo está morto.

Gritti, que não é exatamente um exemplo de ética, se vê envolvido em uma grande cilada. Ao mesmo tempo encara a grande oportunidade de sua vida. E ele não está disposto a deixar tudo de lado e sair de Amsterdã com as mãos abanando.

No meio da trama, personagens bem interessantes: dois detetives holandeses fãs de romances policiais, algumas femme-fatales, um pastor, uma blogueira brasileira e muito, muito, cupuaçú.

Jeff Chandley (é brasileiro, apesar do nome estrangeiro) constrói bem os cenários e os personagens. Percebe-se um intenso trabalho de pesquisa para o desenvolvimento da obra. Aborda um assunto um tanto polêmico e consegue fazer um balanço interessante entre Ciência e Religião, talvez com uma tendência um pouco exagerada para esta última. Mas nada que faça com que a obra perca seu viés de suspense e surpresa.

Que 2007 traga obras tão boas como esta de Chandley.

Notas do livreiro:

1. O autor em duas oportunidades cita o filme Cocoon (Cocoon, 1985), onde um grupo de idosos encontra na piscina do asilo a fonte da juventude. Bom filme, que assisti alguma vezes na sessão da tarde.

2. Outro filme citado pelo autor é "O Inimigo de Estado" (Enemy of the State, 1998) em que Gene Hackman é um advogado implacavelmente perseguido pelo governo americano.

3. O livro tem até site oficial: www.oparadoxogrego.com.br. Vale a pena uma visita.

Abraços criminais,

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Raymond Chandler - Coleção de Chris Vandenbroucke




Raymond Chandler é de fato um dos grandes autores de romances policiais. A análise de suas obras merece um capítulo a parte e é trabalho para mais de um post. Prometo retomar o assunto quando a pesquisa estiver um pouco mais adiantada.

Um dos mais importantes escritores da linha policial denominada "hardboiled" (com detetives mais barra pesada e que transitam bem nos guetos e nas festas da alta sociedade) é o criador de Philip Marlowe, um dos mais famosos detetives da literatura.

Chandler exerce tamanho fascínio que levou nosso amigo belga Chris Vanderbroucke a cultivar uma enorme coleção de sua obra. Segundo a pesquisa de Chris são mais de 1750 diferentes edições (50 delas em português), em mais de 20 diferentes línguas, dos textos de Chandler. E ele já conseguiu quase 1000 delas.

E a obra de Chandler não é tão numerosa: são 7 romances e mais uma série de contos. Mas renderam 15 adaptações para o cinema e quase 50 publicações de estudos sobre ela (sendo 6 biografias).

Chris achou a Livraria do Crime por suas andanças na net. Rapelou nosso estoque de Chandler e foi muito gentil em responder às perguntas da nossa curiosa amiga Bia sobre sua coleção.

Vale a pena conferir a entrevista. O que ele acha de Chandler? "Simplesmente, o melhor. Os livros de Raymond Chandler são obras-primas atemporais e influenciaram a maioria dos escritores contemporâneos."

E quem vai discordar?

Abraços criminais,

domingo, dezembro 17, 2006

Negro e Amargo Blues




Negro e Amargo Blues talvez seja o principal livro de James Lee Burke. Pelo menos foi com ele que o autor levou o Edgar de melhor novela em 1990.

É o terceiro livro com o detetive Dave Robicheaux (de um total de 16 já lançados nos EUA, 5 já desembarcaram por aqui). Suas tramas não são no estilo do que os americanos denominam "whodoit?" (quem matou?). Está mais para: "como Robicheux convencerá os homens maus a pararem com isso?"

O ex-investigador está aposentado, vivendo da venda de iscas e do aluguel de barcos na Lousiana, próximo ao Golfo do México. Vivem com ele, sua filha adotiva Alafair (nome verdadeiro de uma das filhas do autor) e mais dois empregados. Uma vida aparentemente tranqüila. Suas angústias podem ser consideradas normais para um ex-alcoolátra que ficou viúvo de maneira trágica.

Mas, a encrenca parece que o persegue. Meio sem querer acaba se envolvendo com o amigo Dixie Lee Pough, um velho astro de rock dos anos 50 e Clete Purcell, seu antigo parceiro em New Iberia. O alcóol e a grana às vezes nos levam a caminhos indesejáveis...

E quem acaba na mira da Lei é o próprio Robicheaux. A penitenciária de segurança máxima Angola o espera. E ele não vai querer deixar sua menininha Alafair sozinha no mundo.

Robicheaux é um dos grandes detetives da atual literatura americana. Bastante atormentado por seu passado e extremamente violento quando necessário, suas histórias são ansiosamente aguardadas por uma legião de fãs. Neste livro ele está em grande forma.

Notas do livreiro:

1. "Negro e Amargo Blues" (Black cherry blues) é o nome de uma música criada por Dixie Lee. A letra retrata a amargura, a angústia e o remorso do velho amigo de Robicheaux pelos crimes que cometeu e que o fizeram cumprir pena. É uma homenagem ao vinho de cereja vendido ilegalmente na cadeia.

"Negro e Amargo Blues - Dixie Lee Pough"
Você pode se entregar, você pode até cair
De beber e se drogar.
Isso não importa, paizinho,
Porque você nunca vai esquecer
O gosto da prisão,
Do vinho negro e amargo
Do blues desta canção.


2. Este livro foi eleito 1 dos 100 melhores livros de mistério do século, selecionado pela IMBA (Independent Mystery Booksellers Association)

Abraços Criminais.

domingo, dezembro 10, 2006

The Children of Men (Filhos da Esperança)



Filhos da Esperança (The Children of Men, 2006) acabou de estrear nos cinemas brasileiros. Dirigido por Alfonso Cuarón. Com Clive Owen, Julianne Moore e Michael Caine.

É um filme de ficção científica, baseado em livro homônimo de PD James. O ano é o de 2027 e a raça humana está próxima da extinção. Os seres humanos perderam a capacidade de procriar. As mulheres não engravidam mais. O homem mais jovem do planeta tem 18 anos.

O que passaria na cabeça de um homem sabendo que não haverá futuro para sua espécie? Alguns tentariam desesperadamente arrumar alternativas para aumentar seu tempo de vida na Terra. Uns perderiam a esperança no futuro e a razão de viver. Outros iriam enlouquecer e se unir a fanáticos religiosos ou outros grupos de lunáticos buscando explicações para o inexplicável. O caos estaria implantado.

Para organizá-lo, um sistema totalitário, baseado na força militar. Este é o cenário da Londres em que Theo (Clive Owen) tenta escapar com uma "Fugi" (imigrante ilegal) grávida. Deve levá-la ao "Projeto Humano", onde a resistência ao regime trabalha com pesquisas para tentar salvar a humanidade.

O thriller político tem um ritmo alucinante. As sequências são de tirar o fôlego. E em alguns momentos, o filme tem a aparência de um documentário. O sangue chega a jorrar nas câmeras.

Apesar disso, o diretor deixa claro que o filme é somente inspirado no livro. A essência do que foi imaginado por PD James foi preservada. Mas o filme acaba deixando muitas perguntas sem respostas. A primeira reação após terminar o filme é ir atrás do livro (ainda não editado no Brasil). Buscar explicações para algumas questões e terminar de montar o quebra-cabeça imaginado por PD James.

Enquanto o livro não chega por aqui, divirtam-se com uma pequena ficha técnica da obra na wikipédia (em inglês).

Abraços criminais,

domingo, dezembro 03, 2006

Mamãe não voltou do supermercado



"Um Pulp que pensa que é Spillane" Mario Bortolotto

Assim o próprio autor definiu seu livro "Mamãe não voltou do supermercado", na última Balada Literária, ocasião do seu re-lançamento.

Quem somos nós para contestar?

"Mamãe..." é pulp, no seu melhor sentido. Livro com preço bem em conta, com uma história absurda, entretenimento rápido e extremamente divertido.

A história é narrada, em primeira pessoa, por Caio. Um pequeno marginal sem muitas aspirações, que cometia um delito aqui, outro ali. Nada demais. Aí um belo dia executam no supermercado a mãe do cara, uma senhora simples e que "nunca fez mal a ninguém". Intrigado, começa a perguntar. Sua rede de relacionamentos: travestis, prostitutas, traficantes e outras figuras urbanas. O ritmo é acelerado. Londrina, Ourinhos, Foz do Iguaçu e São Paulo.

As mortes começam a ocorrer em sequência, no mesmo ritmo das transas. Imaginação a mil, regada com alguns requintes de crueldade.

A violência, a postura machista e a vingança com as próprias mãos, nos fazem lembrar das histórias de Mike Hammer, o detetive de Mickey Spillane.

Pra terminar, um final chocante - engraçado e trágico. Bortolotto leva jeito pros policiais. Esperaremos o próximo.

Abraços criminais,

Notas do livreiro:

Mario Bortolotto é dramaturgo e autor do blog Atire no Dramaturgo. O título é uma homenagem ao livro Atire no Pianista, de David Goodis, levado ao cinema por Truffaut. Alías, o autor (Goodis) é citado no livro, em um momento chave da trama.

domingo, novembro 26, 2006

Jack, o estripador



Jack, the ripper, o mais famoso serial killer de todos os tempos. Já há 118 anos. Os crimes são reais, mas se configuram quase como ficção. Afinal são tantas teorias, livros, filmes, investigações, sondagens e especulações para descobrir a verdadeira identidade do assassino que começo a pensar que qualquer uma delas vale. Não passam de versões, leituras, da realidade.

Mais de 200 pessoas estiveram sob suspeita de ser o assassino. Os nomes vão do escritor Lewis Carroll, autor de "Alice no País das Maravilhas", ao obstetra da família real.

O assunto voltou novamente à tona com a divulgação de um suposto retrado falado de Jack. "Com a ajuda de programas de computador e outras tecnologias de ponta, um ex-chefe da Scotland Yard conseguiu montar um retrato falado de Jack, o Estripador, o mais conhecido serial killer do século 19. De acordo com o jornal britânico The Independent, John Grieve, que já esteve à frente da divisão de homicídios, analisou as transcrições dos relatos de 13 pessoas que disseram ter visto o assassino para montar o retrato. O resultado mostra o assassino como um homem baixo, de cabelo e bigode negros, rosto magro e idade entre 25 e 35 anos." (O Estado de São Paulo, 21/11/2006)

Antes disso, a última repercussão do caso foi com o lançamento do livro Retrato de um Assassino, de Patricia Cornwell. Ela investiu quase US$ 4 milhões para montar um equipe e dissecar o caso, bem ao estilo Kay Scarpetta, a médica-legista que protagoniza seus romances, quase todos com a presença de serial-killers. Cornwell diz ter encerrado o caso, apontando o pintor Walter Sickert como autor dos crimes.

No cinema, a última aparição foi em A Verdadeira História de Jack, o Estripador (From Hell, 2001) com Johny Deep e Heather Graham. Outra versão, mais uma ficção.

Alías, o filme é na verdade inspirado nos gibis "Do inferno" da premiada dupla Allan Moore (roteirista) e Eddie Campbell (ilustrador) que também aborda os assassinatos de Whitechapel.

    

A divulgação do retrato falado, apesar de não descartar a teoria de Cornwell, coloca mais lenha na fogueira.

"Muita gente acredita que a tese de Patricia Cornwell encerra o assunto. Tenho dúvidas, não creio que seja "a closed case", como ela afirma, e não me surpreenderei se outras teses, também aparentemente verdadeiras, surgirem no futuro." Rubem Fonseca, em um artigo JACK, O ESTRIPADOR disponível em Portal Literal.

Quer mais algumas pistas? O que acha de visitar Londres e fazer uma visita guiada pelos locais dos crimes. Dentre as várias opções deste tipo de passeio, dêem uma olhada no Jack The Ripper Tour, quem sabe você não volta com mais uma versão...

Abraços criminais,

sábado, novembro 18, 2006

Agatha Christie Mailing List




Taí uma grande dica para os fãs de Agatha Christie. E para os fãs de mistérios em geral: O Agatha Christie Mailing List.

Começou como um grupo de discussão (ainda é um grupo de discussão do Yahoo), mas acabou virando um pouco mais do que isso. Além das discussões sobre os diversos livros da Dama do Crime, os participantes desenvolvem outros projetos bem interessantes. Daí saiu até um romance, no estilo "várias mãos" de A Morte do Almirante: "A Sombra da Verdade".

E mais: alguns contos escritos também a várias mãos - e cabeças, afinal não me lembro de mãos escrevendo sozinhas... Opa lembrei, na Família Addams tinha uma, O Coisa, mas aí já é outra história. E ainda um pequeno concurso de contos e interessantes cartas do século XVIII. Fora os projetos que permanecem no papel esperando por mais mãos, e cabeças, e pescoços, e pernas, e braços inteiros para transformá-los.

Vale a pena uma visita. Eu já me cadastrei. Vamos ver o que rola...

Abraços Criminais,

terça-feira, novembro 07, 2006

No rastro de Chet Baker



Bill Moody é um escritor nada convencional. Sua verdadeira profissão é músico. Então, nada mais natural que seu detetive, Evan Horne, também o seja. Mas as semelhanças parecem terminar por aí: Moody é baterista e Horne, pianista. Um pianista-detetive. Conhece muito de música (acho que as semelhanças ainda não terminaram), particularmente de Jazz, e utiliza seu conhecimento para desvendar crimes seguindo as pistas jazzísticas deixadas pelos meliantes.

Os livros de Moody são recheados de referências às obras e aos artistas do Jazz. Uma verdadeira aula - para entendidos e iniciantes. Impossível terminar de ler e não ir atrás das dicas dos personagens. No final dos livros há inclusive uma discografia selecionada pelo autor (ou será pelo detetive?)

"No rastro de Chet Baker" é o segundo livro com o detetive editado no Brasil. Evan Horne acaba de desvendar um caso de um serial-killer (estória contada no primeiro livro da série, "Viva Bird!") e está atrás de um pouco de sossego.

Até seu amigo Ace Buffington lhe propor uma "parceria" para descobrir as verdadeiras circunstâncias da morte do trompetista Chet Baker: acidente, suicídio ou assassinato? Horne não aceita o convite, mas depois que o amigo some, acaba obrigado a seguir o rastro de Chet Baker. O cenário da investigação é Amsterdã, em meio a uma disputada turnê de shows e os becos da Cidade Velha. As armas do detetive são suas amizades no mundo da música, o grande carisma e inteligência acima da média.

Boa pedida!

Notas do livreiro:

1. Fletcher Paige, grande saxofonista, amigo e parceiro na turnê musical de Evan é um grande colecionador de livros de mistério. Seus autores preferidos são: Raymond Chandler, Ross MacDonald, Walter Mosley, Elmore Leonard e um carinha novo, Gary Philips (ainda não editado no Brasil)

2. Evan, em uma de suas manhãs em Amsterdã, visita a Livraria do Crime de lá, a livraria "Alibi" e compra de presente para o amigo Fletcher um livro de Charles Willeford e seu detetive Hoke Moseley (estes também ainda não desembarcaram por aqui).

3. Em uma passagem do livro, seu amigo Coop, investigador do FBI, é interrompido com um telefonema enquanto está assistindo ao filme "Operação França", grande produção inspirada no título homônimo de Robin Moore.


Abraços Criminais,

sexta-feira, novembro 03, 2006

A Promessa do Livreiro



"Um sábio uma vez me disse que alguns de nós não foram feitos para serem escritores"
"Mesmo um sábio não pode saber de tudo"
(da pág. 432, do livro aí de cima)

Frases instigantes que refletem bem os espíritos do detetive Cliff Janeway e de seu criador, o autor-livreiro, John Dunning.

O primeiro porque sempre tem uma resposta para tudo.
O segundo porque leva sua vida sem parecer se importar com os aparentes obstáculos que ela lhe impõe. Simplesmente os ignora e segue adiante.

A promessa do livreiro - terceiro livro com a presença de Janeway - tem um pouco disso. Livro excepcional, daqueles que você não quer terminar de ler. E quando termina, ele continua presente.

Cliff Janeway decide largar sua vida de detetive e monta uma livraria, com especialização em livros raros (John Dunning, o autor, tem uma livraria nos mesmos moldes, a Old Algonquin Books).

A paixão pelos livros leva Janeway até Richard Burton, lendária figura, considerado um dos maiores aventureiros de todos os tempos. Dominava 29 línguas, conhecia dialetos, era um grande explorador, estudioso de antropologia, botânico, autor de 30 livros, espadachim, homem de grande força física e mental e, em seus últimos anos, tradutor dos 16 volumes das Mil e Uma noites, do Kama Sutra e de outros clássicos orientais proibidos. E tudo isso no final do século XIX.

A coisa começa a se complicar quando uma senhora chega em sua livraria com um exemplar autografado por Burton e com uma dedicatória no mínimo curiosa. E toma dimensões desproporcionais quando o livreiro promete recuperar os demais livros da coleção. Está montada a trama.

No centro dela, os livros. Estes objetos malucos que têm o poder de mudar um homem, uma vida, a história. Janeway começa a recuperar os acontecimentos de um século, meio século e alguns dias atrás para cumprir sua promessa.

Promessa é Dívida. E esta, às vezes, leva um bom tempo pra ser definitivamente liquidada.

Abraços criminais,

quarta-feira, outubro 25, 2006

30ª Mostra Internacional de Cinema



A versão número 30 da Mostra de Cinema de São Paulo. Taí um evento que não se pode perder. São poucas sessões de cada filme. E alguns com horários pra lá de malucos para a maioria dos mortais. Mesmo assim, vale a pena o esforço.
A variedade e a quantidade dos filmes são gigantescas. Fizemos uma pequena seleção de alguns filmes que parecem ser interessantes e que d algum modo se relacionam com a literatura de crime e mistério.

A Cobradora de Apostas (2006)

Bandidos de Milão (1968)

Dia Noite, Dia Noite (2006)

El Cobrador (2006)

Este Crime Chamado Justiça (1971)

Hiena (2006)

Histórias Tenebrosas (1919)

Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (1970)

Komma (2006)

Las Vueltas del Citrillo (2005)

Luzes na Escuridão (2006)

O 10º Homem (2006)

O Brinquedo Proibido (1979)

O Grande Truque (2006)

Os Infiltrados (2006)

Réquiem para Billy the Kid (2006)

Taxidermia (2006)

Tenebrae (2005)

Violência em Família (2006)

Abraços Criminais

sexta-feira, outubro 20, 2006

quarta-feira, outubro 18, 2006

O Mercador de Café



David Liss tem se especializado em suspenses históricos, abordando muito bem temas relacionados às finanças e à economia. Depois do ótimo “Conspiração de Papel”, onde o ex-boxeador Benjamin Weaver se envolve em uma trama com títulos de uma empresa inglesa, neste “O Mercador de Café” o cenário é a Holanda do século XVII, com as tensões se passando na bolsa de valores, em meio a títulos futuros e opções de compra e venda de mercadorias.

O leitor é “literalmente” transportado para a Amsterdã de 1659:

“Os sinos de Nieuwe Kerk badalavam duas vezes, indicando o fim das movimentações na bolsa de valores. Centenas de corretores saíam para a Dam, a grande praça no centro de Amsterdã. Espalhavam-se pelos becos, ruas e margens do canal. Ao longo da Warmoesstraat, caminho mais rápido para as tavernas mais populares, os vendedores ficavam do lado de fora das lojas envergando chapéus de abas largas para protegê-los das emanações do Zuiderzee. Expunham sacos de especiarias, rolos de linho, barris de tabaco. Alfaiates, sapateiros e chapeleiros convidam os clientes a entrarem nas oficinas enquanto vendedores de livros, canetas e quinquilharias exóticas anunciavam suas mercadorias.”

“A Warmoesstratt tornava-se uma enxurrada de chapéus e roupas negras, maculada apenas pelos colarinhos, mangas e meias brancas, ou pelo brilho das fivelas de prata dos sapatos. Os negociantes vendiam bens do Oriente e do Novo Mundo, vindos de lugares a respeito dos quais ninguém ouvira falar cem anos antes. Excitados como escolares liberados da sala de aula, os comerciantes falavam de seus negócios em uma dúzia de idiomas diferentes. Riam, gritavam, apontavam e agarravam qualquer coisa jovem e feminina que cruzasse seu caminho. Sacavam as suas bolsas e devoravam as mercadorias dos lojistas, deixando apenas moedas à sua passagem.”

O livro tem como carro chefe as artimanhas e negociatas de comerciantes judeus buscando a fortuna rápida nos mercados de valores. O protagonista principal, o judeu-português Miguel Lienzo, tenta a todo o custo salvar sua reputação de grande negociador e enriquecer com um produto até então desconhecido da população européia: o café. Suas armações para controlar o mercado do produto esbarram nos interesses de poderosos grupos, muitos deles representados pela classe dirigente da comunidade judaica recém chegada à Amsterdã.

Neste jogo, traições, trapaças, ameaças, vinganças e mentiras são as peças a serem movimentadas por personagens interessantíssimos como Alonzo Alferonda, Solomon Parido e Geertruid. Vale a pena conferir.

Curiosidade: Ao longo da obra, Miguel Lienzo se distrái com as revistas do ladrão “Pieter, o galante”. Não sabemos se o personagem realmente existiu ou se é uma homenagem a outros ladrões da literatura, como Arsene Lupin, de Maurice Leblanc. Se souberem de alguma pista...

Abraços Criminais